segunda-feira, 7 de março de 2022

PEDINTIS

Imagem: Personagem Chiqueirinho (Pig-Pen) do cartunista Charles Schulz / guiadosquadrinhos.com

Quem aí pega metrô, ou trem, tá ligado: a quantidade de pessoas pedindo uma ajuda pelo amor de deus, ou vendendo alguma coisa, comestível ou não, aumentou drasticamente de uns tempos pra cá. Óbvio, a pandemia é a causa principal dessa situação. Porém, não podemos negar, sempre existiu isso, sempre se viu vendedores ambulantes pelos corredores deslizantes do metrô e dos trens; um pedinte e outro também sempre se via por lá.

        Os que a gente quase não vê hoje são os seguranças. Antes, sempre se via dois, no mínimo, ali pelas catracas ou até mesmo andando pelos vagões. Hoje, aquelas pessoas de preto carrancudas e de porte intimidador só são vistas em dias de grandes jogos futebolísticos, ou de grandes eventos musicais, que ocasionalmente ocorrem pela cidade. No dia-a-dia é muito raro ver um par desses.

        Mas voltando aos pedintes. Você aí já deve ter reparado: têm muito pai e muita mãe levando seus filhos nesse corre. Se não viu, logo aviso: sempre é uma criança de colo. E essa, geralmente, tá com muito sono, ou muito puta da vida, em estar ali com o pai ou com a mãe. Um mau-humor é sempre visível nesses pequenos. Ou um puta de um celular grandão em suas pequenas mãozinhas. Você aí já viu isso? Não? Pois eu sempre vejo. Esses pais, ou mães, estão sempre com um mochilão, tipo mochila de mochileiro do leste europeu nas costas, ou uma sacolona de lona a tiracolo típica das sacoleiras da 25 de março, do Brás e/ou do Bom Retiro. É coisa muito comum vê-los por aí pedindo uma ajuda, uma moeda de cinco, dez centavos neste mundo cada vez mais hiperconectado que não utiliza mais dinheiro vivo, sequer moedas. Aliás, até por isso mesmo, muitos desse pessoal aí já aceitam PIX de caridade. Um e outro vão falando suas chaves ou ostentando plaquinhas no pescoço para o caridoso não errar o seu tão necessário donativo. Até a esmola já virou high-tech.

        Coisa de louco? Coisa trivial de um sistema capitalista selvagem? Bah! Esses não diferem em nada do pessoal aí das redes sociais que pedem à exaustão para nós, seus simples seguidores, darmos um like, um joinha, para nos inscrevermos no canal, que nós precisamos ativar a porra do sininho e compartilhar a merda toda para todos os nossos contatos.

        É gente demais pedindo coisas que quase ninguém tem.

sexta-feira, 4 de março de 2022

SUPORTES DE CARNE

Imagem: g1.globo.com


Celular é acessório muito comum hoje me dia, certo? Vira e mexe, ou melhor, pra tudo que é lado, você vê alguém vendo pro próprio celular, seja parado em um canto suspeito ou bem no meio da rua mesmo. Há, por aí também, uns mais radicais que ficam olhando pro dito cujo enquanto estão andando, caminhando em baixo de sol, chuva com ou sem guarda-chuva. É coisa de louco. A telinha luminosa fisga a nossa atenção plena. É no metrô ou no busão, sempre tem alguém olhando pro próprio aparelhinho ou pro alheio, o do vizinho.

        Contudo, porém, entretanto, o fato mesmo curioso é onde as pessoas os apoiam.

        Você aí mesmo já deve ter visto, ou até faz o que vou aqui comentar, têm muita gente por aí apoiando o bichinho no bucho. Sério. Já vi gente olhando pro celular na altura dos zóios, que é prática mais comum, já vi gente olhando pra ele mais abaixo, num ângulo de noventa graus mais ou menos, também já vi gente olhando pro celular o apoiando na cabeça do/a filho/a impaciente, que também quer porque quer ver também o que o/a pai/mãe tá vendo sobre ele/a, mas, sobre o próprio bucho, era caso raro de presenciar.

Hoje, isso tá mais comum, bem mais. E tal fato não é só caso exclusivo de homem, não, viu. Já vi muita mulher apoiando o celular espalhafatoso de colorido sobre a saliência aparente. Ambos os sexos estão mais buchudos mesmo, e mais encurvados, corcundas também. Pergunte aí pro seu alfaiate pessoal, ou pra sua costureira profissional, eles vão lhe confirmar: hoje tá todo mundo mais cheinho e dobrado sobre si. Décadas atrás, as pessoas eram mais esguias, retas, de porte e estatura varapau, olhavam mais para frente, e não para baixo. Pessoa corcunda só se via quem tinha algum problema de saúde. Os buchudos então eram bem raros. Tempos difíceis eram. Chocolate, sorvete, que vinha em pote de isopor (!), eram artigos de luxo. Coisas consideradas de presente para o fim do ano apenas, sabe?

Enfim, tudo isso aí dito, parece até uma involução, não achas? Você já deve ter visto por aí nas estampas das camisetas da molecadinha esperta, aquele desenho do homem caminhando que representa a evolução humana, certo? Lá, na estampa, nos encurvamos aos poucos numa tela de computador, não é? Acho que até esse desenho crítico tá carecendo ser atualizado. Até onde nós nos agacharemos, hein? Tô achando que acabaremos rolando, que nem aquela pedra do Sísifo.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

PINGO DE CHUVA

Imagem: br.freepik.com


Caminhando na quase-chuva,

Vejo gente correndo apavorada,

Querendo fugir da enxurrada

Que se aproxima acima uiva.

 

Vejo-os e não os entendo,

Fugindo assim mó medo

Por causa de um dilúvio

Que só se fez silvo.

 

Vejo-os se abrigarem,

Querendo não se molhar tanto;

Um e outro vão empurrando;

Cada um por si, o resto é tonto.

 

Quanto a mim, parado fico

Olho para cima para ver

E não vejo, só sinto na palma da mão aberta

O primeiro e único pingo.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

O GIGANTE INVISÍVEL

Imagem: br.pinterest.com

parado no semáforo

ou no farol

vi:

o ser diminuto se agigantar

rompendo cabos

ou fios

causando um deus-nos-acuda no lugar

a calçada logo se desfez

o asfalto asfáltico também

rachou de vez

pois a monstruosa criatura

antes pequenina

avolumou-se

ganhou corpo

uma tremenda estatura

pois de ossos e carne era feita

eleita

contabilizando somente os votos válidos

cálcicos

aí, fudeu

o ser cresceu

se pôs cartaz

aí, todos viram ele

virando um grande problema

quem é ele?

ôxe!

ele é o esquema

que todo mundo vê

mas não comenta

vai saber porquê

 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O DRAMA DO TRAUMA DE INFÂNCIA

Imagem: telavita.com.br

Mamar já não pode

Mas picas e rolas chupa

E nem pra isso dá desculpa!

Faz e se sente bem

Chega junto, neném!

Deixa de caso,

Deixa de bode

A ideia é mesmo tirar o atraso

Fazer direitinho

E agradar bem o menino

Não desperdiçando nem um pingo!

Faz assim,

Faz assado

Todo frango mete drama

Não manda nudes

Mas manja

Tudo pra não virar canja!

Quem se acha

Nem sequer faz o básico

Decepção fácil fácil

Mas aê!

Quando supera o preconceito,

Quando supera o próprio despeito

Até trauma de infância

Deixa de ser

Caso de significância

Vira ânsia

Ânsia por si mesmo

Sem drama,

Sem drama

Só na boa

E ama